sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Diário: 9 de janeiro de 2012

(Ilustração feita por Enthony K. exclusivamente para este blog)

9 de janeiro de 2012.

O ano começou com dor de cabeça já. O Henrique e a Giovana já começaram a discutir por conta do namorado argentino dela. Ela disse que o namorado até comprou as passagens e que vai ficar na nossa casa. O Henrique disse que não vai ter ninguém na casa dele que ele não conhece nem confia. Ele sempre implicou com qualquer namorado da Giovana. Eu costumo tentar aliviar as coisas, mas nem sempre consegui. Dessa vez eu nem quero melhorar nada, acho que o Henrique está certo.

Em vez da minha filha estudar de verdade enquanto dá tempo, ela resolve ficar ouvindo música no quarto e falando com o namorado. Quando se é jovem, é possível mudar de vida, porque, quando a vida chega numa certa fase, não tem o que fazer além de lamentar a vida.

O Daniel e a Rayane estão muito bem. Resolveram até dar uma viajada para a Chapada neste fim de semana. Dizem que lá é muito bonito, mas até hoje eu não sei como é de verdade, só pelas fotos dos outros que eu conheço o lugar. O Henrique não gosta muito de sair para conhecer a natureza e eu acabo sem conhecer também.

Ando sentindo falta de ler o livro do Fernando Pessoa. Ele me fazia bem Acho que eu até escrevia melhor depois que eu lia uma de suas reflexões sobre a vida. A pessoa quando fica com a mente e o coração vazios não tem muito o que resolver e acaba fazendo e pensando bobagem. Acho que a melhor promessa de início de ano que eu posso fazer é pelo menos ler alguma coisa para ver se eu dou um exemplo para a minha filha que está fazendo um monte de bobagens.


(Esta é uma obra de ficção criada por Fernando Fidelix Nunes)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

O Desafio de se Combater o Racismo no Brasil no Século XXI

Olá a todos!

Hoje teremos mais uma estreia aqui na coluna Supernova! A estudante Isaely de Oliveira Laureano escreveu um excelente texto dissertativo-argumentativo na sua prova de Língua Portuguesa sobre o tema "O DESAFIO DE SE COMBATER O RACISMO NO BRASIL NO SÉCULO XXI". Com a sua autorização e de seus pais, transcrevi a sua redação, que só teve duas correções em relação à acentuação gráfica.

Os leitores perguntar-se-ão se foi realmente ela que citou uma frase do grande pesquisador Teun Van Dijk, isto é, se seu professor - Fernando Fidelix Nunes - não se intrometeu e colocou a frase para deixar o texto mais intelectualizado. Essa frase é oriunda de uma entrevista dada por Van Dijk para pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (disponível para download no seguinte link: periodicos.ufes.br/percursos/article/download/11626/8183). Inseri um trecho da entrevista que pudesse ser lido e compreendido pelos meus alunos de 9º ano do Ensino Fundamental na prova, inclusive havia uma pergunta sobre o porquê do uso da vírgula na frase "O racismo não é inato, mas aprendido" e o significado dessa frase. Dessa forma, ela conseguiu perceber que a frase de Van Dijk poderia ajudá-la bastante a construir sua argumentação. 

Muitos professores acreditam que inserir textos de grandes pesquisadores sobre temas complexos são impossíveis para os nossos adolescentes, devido à sua idade. Eu acredito que o uso de entrevistas de grandes pensadores pode ser muito importante para aproximar os alunos dos grandes pensadores do seu tempo. Por meio dessa estratégia, podemos construir debates mais interessantes nas práticas escolares, que precisam ser aperfeiçoadas com o objetivo de proporcionar aos nossos jovens um ambiente de aprendizagem mais efetivo e acolhedor.

Espero que aproveitem a leitura!



“O racismo não é inato, mas aprendido”. Esta frase é uma expressão usada por Teun Van Dijk para deixar bem claro que o racismo é e sempre foi ensinado.
Essa frase, ao ser analisada, quase automaticamente nos convida a repensar o que temos aprendido e ensinado. Segundo a frase de Van Dijk, se a sociedade do século XXI é racista, obviamente é porque foi ensinada a ser assim pelas outras gerações.
Nos últimos anos, muitas campanhas têm sido feitas tendo o combate ao racismo como tema, e é verdade que elas têm conscientizado muitas pessoas, mas não basta só a mídia, nós no nosso convívio, no que se refere ao nosso modo de agir, temos que investir mais em humanizar as pessoas.
É preciso ser levado em consideração que a família e o círculo de convívio de cada um têm muito mais influência na vida de alguém do que o que ela vê em cartazes ou assiste na televisão.
Sendo assim, precisamos saber de que formas temos influenciado as pessoas ao nosso redor: se com crueldade e preconceito ou com amor e inclusão. Se recebemos a má influência racista que era comum nas décadas passadas, é claro que jamais deveríamos reproduzi-la no tempo em que vivemos.
Devemos ter cuidado com o que falamos e com quais ideologias temos propagado, o racismo jamais pode ser uma delas. As próximas gerações espelharão o que fazemos na nossa. Devemos dizer não ao racismo e mostrar a cada vez mais que acima de cor e características físicas, estão o caráter e um coração que continua pulsando dentro de cada um, seja ele branco, preto, azul ou verde. As pessoas precisam saber olhar além do próprio complexo de superioridade racial e ver que por baixo dos tecidos somos de carne e ossos, todos iguais.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Diário: 3 de janeiro de 2012


(Ilustração feita por Enthony Kevin exclusivamente para este blog)


3 de janeiro de 2012.

Passei um tempo sem escrever porque eu resolvi reler o meu ano antes de escrever mais sobre a vida de “um novo tempo, que começou”. O Natal na casa da família da Rayane foi muito bom. Conhecemos os pais dela, Lúcia e Roberto, e o apartamento que eles têm na 404 sul. É desses que nem elevador tem. Deu um trabalho para subir aquelas escadas, mas foi bom para queimar a rabanada do fim de ano. De uma coisa eu gostei: me deixaram livre da cozinha. A Rayane falou que os pais dela faziam questão de fazerem tudo em casa mesmo. Claro que depois ficou bastante subentendido que o Henrique e eu devemos retribuir nestas férias. Na verdade, só eu porque o Henrique não vai fazer nada mesmo.
O apartamento deles tem três quartos, um para eles, um para a Rayane e outro para o irmão dela, chamado Luiz, um moleque de 17 anos que só sabe falar de vestibular. Conversou até bem com a Giovana, mas deu para perceber que ele sabe de mais coisa que a Giovana sobre vestibular. Até no Natal eu sinto vergonha da minha filha. Mas não tenho do que reclamar, pois comi bem e dei umas risadas à toa por aí. Sair de casa, para mim, é uma espécie de libertação da vida que levo. Mas não adianta nada sair e ver as mesmas pessoas sem graça de sempre e sentir o mesmo clima pesada.
Na casa dos pais da Rayane foi muito bom, mas na casa do Agenor e da Aurora foi muito ruim. Além daquelas pessoas chatas e sem graça, tive de aguentar a perturbação do William, que botou na cabeça que quer ser chamado de Alana. Como era Natal, as pessoas resolveram abraçá-lo por educação, mas todos fizeram questão de dizer William, só não a Giovana que fez questão de chamar de Alana. O abraço deles foi mais demorado também. Muito ruim ver a minha filha incentivando esse tipo de bobagem na cabeça de um menino perturbado. Eles foram (não consigo escrever elas) foram até para dentro da casa. A Giovana depois me contou que o William mostrou um monte de poemas dele que ele queria que fossem publicados por ela. Ela disse que gostou, mas acho que não deve ser tão bom assim, afinal a minha filha nem gosta de ler de verdade para saber o que é poesia boa e o que não é. A vida é cheia dessas coisas mesmo.
Agora ver o Henrique dando um jeito para ficar perto da Tereza foi muito ruim. Ele sempre se aproveitava quando eu estava ocupada com alguma coisa para falar com ela, chegar perto e “ajudar” em alguma coisa. No final eles não ficaram sozinhos nunca nem aconteceu nada. Mas me pareceu ser aquele tipo de nada que significa tudo na intimidade das pessoas. Esse tipo de coisa realmente é importante de se perceber e mudar. Eu já percebi, agora falta fazer a outra parte que é mais difícil.
O Ano Novo foi na casa de um amigo do Henrique. Muito ruim. Ia ser melhor ficar em casa, e fazer qualquer outra coisa. O Henrique escapou por pouco de uma blitz da polícia umas quatro da manhã. O nosso carro passou e o carro seguinte foi parado. Foi uma tremenda sorte. E, para fechar o começo de ano com tudo, o Henrique caiu na cama e dormiu. Só dormiu, não sei porque eu me surpreendo ainda com isso.
Olhar para frente agora é um grande desafio para mim. Só vejo problemas à minha frente. O negócio é ir aguentando os desafios e os vazios da vida. Ando meio desanimada para escrever. Talvez eu me anime mais durante o ano. Estranho, porque as pessoas costumam ser mais animadas no início do ano. Até falei com minha família, mas para mim isso não tem importância, não por agora.  

(Esta é uma obra de ficção criada por Fernando Fidelix Nunes)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Diário: 23 de dezembro de 2011

(Ilustração feita por Leonardo B. Ferreira para este blog)


23 de dezembro de 2011.

A vida parece que sempre tem um espaço para definido para as datas. Desde que eu sou criança o Natal tem um significado diferente. As pessoas mudam no fim do ano. Parece que são tomadas por uma espécie de atmosfera de paz. As pessoas se animam em fazer trabalho voluntário, fazem correntes do bem e até bolão da Mega-Sena o pessoal dá um jeito de fazer.

A cidade hoje deu uma mudada muito boa. Até a corrupção e a política deixaram de dar dor de cabeça para o povo. Caiu mais um ministro da Dilma, mas foi no início do mês. Agora já está bem tranquilo. Do jeito que a coisa anda para ela, um dia podem é botar a mulher mais poderosa do Brasil para o olho da rua. Neste país, tudo pode acontecer.

O ano não terminou, mas a televisão fica nos ajudando a reviver os momentos mais marcantes deste ano. Teve um massacre terrível numa escola lá no Rio de Janeiro. Nossa, a Giovana até ficou com medo de que algo do tipo acontecesse na escola dela. Com tanta coisa para o Brasil importar dos Estados Unidos, a gente resolveu importar logo esse negócio de fazer massacre em escola. Imagina só se eu fosse querer matar todo mundo que me fez sofrer. Não ia sobrar ninguém para contar história. A minha família estaria hoje em um cemitério e eu numa prisão, já que eu seria incapaz de me matar. Não que eu não esteja em um tipo de prisão, mas a da cadeia deve ser muito pior do que a que eu vivo aqui. A gente precisa aprender a importar dos outros países e das outras pessoas o que elas têm de bom e não o que têm de ordinário.

Na verdade, eu acho que estou escrevendo aqui mais para fugir da realidade. Ver Tereza e William, que quer ser chamado de Alana, no Natal vai ser bem chato. Eu ando com um pouco de irritação com a vida que chega. Essa falsidade de fim de ano para mim é insuportável. E ainda vou ter que aguentar a minha família de Minas no telefone. Ninguém diz que a vida é fácil, mas podiam falar sobre as dificuldades de se viver cada dia e como resolvê-las de vez em quando também.


(Esta é uma obra de ficção feita por Fernando Fidelix Nunes)

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Transição


Olá a todos!

Hoje teremos duas estreias aqui no blog em um único texto. Teremos duas novas seções para agitar este blog: “Supernova” e “Qualquer Coisa em Qualquer Lugar”. A primeira é destinada à publicação de textos de jovens amantes da arte, especialmente da literária. Nossa cidade e, principalmente, nossas escolas pecam bastante em não dar espaço para os estudantes inserirem seus trabalhos no seio da vida social de forma mais permanente. Talvez essa coluna ajude a reduzir a dívida que esta Capital tem para com talento dos nossos jovens.

A segunda será uma coluna feita por Any Beatriz Marques de Souza, jovem estudante que acaba de concluir o Ensino Fundamental com louvor. Ela irá sair do seu querido colégio e irá iniciar uma jornada desafiadora no Ensino Médio. E é justamente sobre essa transição que tratará a sua crônica de estreia, que será melhor entendida por quem conhece a Secretaria de Educação do Distrito Federal. Saber que crescemos e precisamos nos preparar para novos desafios e responsabilidades é mais necessário do que nunca. Aproveitem!

Transição

Antes mesmo de abrir a portinha da gaiola, um último alpiste, um último pedaço de bolo de aipim, uma última ida ao sol antes que comece a chuva, uma última frase metódica e um último canto.

Com as janelas fechadas sinto saudades de ir lá fora, mas tenho medo de nunca mais voltar para dentro e ficar sobre colo das cadeiras duras. Uma cadeia que guarda livros, guarda fogo que incendeia de maneira incontrolável cada alma cansada dentre as inúmeras paredes e janelas daquele local hostil e abominável, porém previsível e acolhedor.

Dentro das mochilas, pedras preciosas que logo serão substituídas por tijolos e pedregulhos; dentro dos blusões e moletons padronizados, existem corpos cansados e sedentos de conhecimento, aventura com ausência do abraço.

Sentirei falta dos ratos e dos insetos repugnantes, seguidos dos gritos estridentes que rangem os ouvidos, no entanto, não poderei evitar o crescimento, terei de deixar de lado primatas e entrar na ala dos elefantes e encará-los até eles me consumirem por inteira e deixar-me tornar alguém que mude um outro indivíduo ou apenas existir, um ser medíocre que só sobrevive e não vive.