Marcadores

Mostrando postagens com marcador Opinião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Opinião. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 25 de junho de 2020

O Futuro da Ciência Brasileira após a Pandemia


O Futuro da Ciência Brasileira




    Escrever sobre o futuro costuma ser uma prática muito desacreditada em nossa sociedade. Por um lado, existem pessoas que ao fazê-lo erram brutalmente as suas previsões, que costumam ser baseadas em achismos de toda ordem – alguns relacionados, inclusive, às mais diversas divindades. Por outro lado, a vida hipermoderna é marcada por instabilidades políticas, ambientais, econômicas, tecnológicas, psicológicas e sociais – variáveis cada vez mais interligadas entre si – que desafiam os pesquisadores mais sérios a estabelecerem uma perspectiva precisa do futuro. Entretanto, a probabilidade de algumas coisas acontecerem é extremamente óbvia para os próximos anos, principalmente em relação à sobrevivência da ciência em nosso país. Sim, sobrevivência, pois precisaremos lidar com recursos extremamente escassos e desafios perversos para continuar a construção do conhecimento para as mais diversas áreas de pesquisa.
Nos últimos anos, o desenvolvimento científico do Brasil tem sofrido duros golpes, especialmente a desvalorização do conhecimento acadêmico e a diminuição de investimentos. Alguns setores já estavam dando sinais claros de debilidade antes da crise econômica que tende a continuar nos próximos anos. Os cursos de licenciatura das universidades privadas do Distrito Federal, por exemplo, deixaram gradualmente de existir. Alguns ainda sobrevivem no ensino a distância, mas sua sustentabilidade, sua qualidade e seu prestígio estão longe de serem atrativos para as novas gerações.
Sair de uma conjuntura dessa natureza é extremamente difícil e é absolutamente impossível se continuarmos querendo a manutenção do antigo modelo para todos os profissionais. Com isso, não quero dizer que devemos destruir ou diminuir o valor das instituições públicas de ensino, responsáveis pela maior parte da nossa produção científica. No contexto brasileiro, precisamos lutar para que elas continuem de pé e atuando de forma efetiva na construção e na difusão do conhecimento. Entretanto, fica cada vez mais evidente que uma quantidade elevada de graduados e pós-graduados não conseguirá ocupar os cargos tradicionais do mercado de trabalho. Algumas profissões, como a de professor(a) de português e matemática, tendem a continuar existindo, ainda que com salários mais reduzidos, mas esse quadro tende a ser mais crítico para outras áreas, como: filosofia, história, sociologia, artes e comunicação.
A saída mais plausível para os próximos anos é popularizar o acesso ao conhecimento acadêmico e o registro perene de debates e conteúdos acadêmicos por meio dos novos canais de comunicação, especialmente no YouTube. Um dos fatores de desmoralização da cultura acadêmica parece ter sido a pouca exploração dessa plataforma para difundir o conhecimento por meio de pesquisas e debates consistentes sobre temas relevantes para a sociedade contemporânea, como: o poder do discurso populista, a implementação de metodologias de ensino mais eficientes e a política econômica brasileira. Como o pensamento científico não foi predominante nessa plataforma nos últimos 10 anos, temos hoje discursos absurdos lutando pela hegemonia em alguns grupos da sociedade, como o caso de pessoas absolutamente convictas de que a Terra é plana.
Para tanto, podemos associar a nossa rotina de estudo e produção acadêmica, dentro do possível, a uma rotina de práticas ligadas ao YouTube. Como sou professor de Português e doutorando em Linguística, darei mais exemplos ligados à minha área, mas que sem dificuldades podem ser incorporadas a outras áreas do conhecimento.
Como acadêmicos, por regra, temos uma rotina de leitura bastante vasta e profunda sobre diversos temas. Em vez de guardar nossas leituras e observações em fichamentos e anotações privadas, podemos publicar vídeos simples em que discutimos as obras e os temas que estamos lendo e, por consequência, difundir o conhecimento acadêmico de forma mais prática para a sociedade. Precisamos manter, após o fim da pandemia, o hábito de gravar e publicar debates e entrevistas acadêmicas, pois, ao serem publicados no YouTube, tornam-se um precioso material de estudo para sustentar a hegemonia acadêmica com base em estudos científicos sólidos. Por fim, precisamos publicar vídeos que expliquem de forma mais objetiva conceitos de grande interesse por parte do grande público, como o fazem os dicionários científicos. Deve-se ressaltar que os vídeos devem ter títulos sem sensacionalismos que ajudem o grande público a encontrá-lo pelos buscadores de forma mais fácil e prática.
Esse conjunto de práticas pode ser mais atraente a jovens pesquisadores das áreas de ciências humanas, que enfrentarão o lado mais delicado da crise, pois terão muita dificuldade de obter um emprego remunerado em áreas convencionais de ensino e pesquisa pela quantidade escassa de recursos ofertados pelo poder público nesta década. O YouTube permite diversas formas de remuneração, principalmente por meio da veiculação de anúncios publicitários e campanhas de financiamento coletivo. Além disso, um canal no YouTube bem sucedido pode ajudar a construir uma reputação acadêmica que facilite o acesso à docência em instituições de ensino superior, principalmente as privadas, e a publicação de livros autorais sobre temas ligados à sua área de atuação profissional. Dessa forma, torna-se possível uma inserção sólida do conhecimento acadêmico na nossa sociedade.
Algumas associações e editoras começaram, no contexto da pandemia, a ter uma maior capilaridade na sociedade. O canal da ABRALIN (Associação Brasileira de Linguística) já chegou a 15 mil inscritos; a Parábola Editorial, principal editora da área de Linguística, alcançou 13.600 inscritos; a Editora Contexto possui quase 16 mil inscritos; e a Companhia das Letras já tem cerca de 50 mil inscritos. Esses canais fortalecem o discurso acadêmico e ajudam na formação continuada não só de pesquisadores, mas também de diversos grupos sociais sobre temas centrais da contemporaneidade, como: o combate ao racismo, metodologias de ensino para a educação básica, os usos das novas tecnologias na vida social e o papel imprescindível da arte para as sociedades contemporâneas.
Esses números podem parecer humildes se comparáveis a canais de YouTubers populares, mas, antes de ser um obstáculo, isso deve ser visto como uma oportunidade para expandir o papel do conhecimento científico na vida cotidiana. E precisamos lutar bastante nesse processo, pois trata-se de uma guerra por sobrevivência antes de qualquer coisa.
(Fernando Fidelix Nunes)

sexta-feira, 27 de março de 2020

A Política do Eufemismo


A Política do Eufemismo


A ideia mais repetida por mim nas crônicas deste blog é a de que vivemos, nos últimos anos, numa realidade que nenhum grande nome da literatura conseguiria prever, isto é, a nossa realidade provavelmente será a principal obra de ficção da história da humanidade. Saramago (apesar de ter produzido “Ensaio sobre a Cegueira”), Mário de Andrade ou Clarice Lispector jamais conseguiriam expressar a angústia dos nossos tempos e, muito menos, o seu surrealismo trágico. Daqui a 20 anos, iremos olhar para este momento da história com um profundo e confuso assombro. Além das dores cotidianas que afligem a alma humana – como problemas familiares, amorosos e profissionais –, lidamos com duas das mais cruéis faces da vida humana: a morte e o sofrimento diante da nossa inépcia total para lidar com um problema tão grave e caótico.

Nessa conjuntura, observamos o uso indiscriminado de eufemismos para discutir a realidade brasileira. Para quem não lembra ou não teve aula sobre o assunto, o eufemismo é uma figura de linguagem que consiste, basicamente, na suavização do significado de um enunciado por meio de expressões que lhe tirem o “peso”. Em vez de dizer “ela morreu”, por exemplo, dizemos que ela não está mais entre nós ou que ela se foi. O que é estranho hoje é a maneira manipuladora como o eufemismo vem sendo utilizado, especialmente no atual contexto político e social.

O amigo do Queiroz anda chamando o novo coronavírus de “gripezinha” e “resfriadinho” de forma recorrente. Trata-se de uma pandemia que pode matar uma parcela considerável da população, principalmente idosos, e destroçar social e economicamente a sociedade brasileira. Ainda fala em ter histórico de atleta que lhe dá forças para sair imune da doença. O cara é incapaz de fazer flexões direito, mesmo antes da facada, e fica pagando de atleta para enganar trouxa. É um ótimo exemplo de uso do eufemismo para manipular e dissimular os fatos reais. A sorte do brasileiro é que ministros, deputados, senadores, governadores e prefeitos estão sendo mais responsáveis e eficientes que um presidente que espalha a confusão a todo custo. No fim das contas, ele gosta e sente um prazer inenarrável ao ser o centro das atenções de polêmicas toscas.

Do ponto de vista econômico, o governo projeta que o PIB do Brasil vai crescer 0% neste ano, contra todas as expectativas globais de tombo da economia brasileira e global. Diante de uma visível manipulação, eu vi comentaristas dizerem que é uma “previsão otimista” por parte do desgoverno. Previsão otimista diante de todas as variáveis contrárias é pura e simples manipulação institucional para enganar conscientemente a população mais exposta a essa crise, que precisa ser acolhida de forma mais eficiente para não cair nos braços da ignorância e do obscurantismo.

Por fim, aconteceram “mudanças” nas regras de concessão de bolsas de estudos dando prioridade a áreas de retorno imediato. Isso quer dizer que querem dilacerar as ciências humanas para que se tornem áreas cada vez mais sucateadas e sem perspectiva futura sólida para seus pesquisadores. Não se trata de uma troca de prioridades, pois são áreas já marginalizadas do ponto de vista do investimento, mas de um ataque à cultura e ao conhecimento capaz de fazer o ser humano ampliar a sua sensibilidade e mudar diversas políticas públicas para combater o subdesenvolvimento da sociedade brasileira. Claro que o investimento nas ciências humanas, como em todas as áreas, pode ser discutido e modificado, mas a maneira como foi feito esse processo é sorrateira, tosca e inadmissível.

Neste momento, o Brasil e o mundo precisam, acima de tudo, de conhecimentos e ações técnicas para confrontar as crises múltiplas oriundas da pandemia do novo coronavírus. A humanidade precisa pensar no seu bem-estar com base nas orientações das autoridades técnicas da área de saúde para conter a expansão da pandemia, ou seja, seguir em quarentena e com cuidados redobrados com a higiene – o que, para se materializar, precisa do auxílio do Estado Brasileiro, principalmente, por meio de vouchers. Já a mente pode ser tratada por meio da abertura de diálogos com várias pessoas próximas e de grandes nomes da literatura, da filosofia, da psicologia, da sociologia, da antropologia, da linguística, do direito, das ciências políticas, enfim, da humanidade.


(Fernando Fidelix Nunes)

domingo, 3 de novembro de 2019

Inveja da Ficção


Inveja da Ficção


Estive bastante ocupado nos últimos meses com atividades e problemas que diminuíram substancialmente a minha produção para blog. Mas estou de volta com meu trabalho, principalmente na data de hoje, em que completamos 2 anos de Pena Capital.

Sou sincero em dizer que tenho inveja do roteirista por trás da conjuntura brasileira atual. Creio que Machado de Assis, Clarice Lispector, Victor Hugo, Rachel de Queiroz, Cecília Meireles, Guimarães Rosa, Victor Hugo, Balzac, Tolstói, Dostoiévski, José Saramago e muitos outros grandes nomes da literatura seriam absolutamente incapazes de fazer qualquer texto literário com metade da complexidade da América do Sul atual. Ninguém seria capaz de imaginar personagens e ações tão atípicas e complexas em tão pouco tempo.

A Venezuela vive a maior crise, a capital do Equador chegou a ser alterada, a Bolívia vive uma profunda tensão política nas eleições, Chile vive um caos social que coloca em xeque o paradigma neoliberal e a Argentina não decide qual é o melhor modelo político a seguir desde o início deste século. Definitivamente, vemos um continente em indignação e perdido no caos. Nessa conjuntura, qualquer colocação ou previsão, por mais absurda que seja passa a ser verossímil, até mesmo para os analistas mais comprometidos e exigentes.

O Brasil também não podia ficar fora dessa zona da confusão. O nosso presidente tem o dom de criar crises e se queimar das maneiras mais toscas possíveis. Cogitou seriamente colocar seu filho como embaixador, mas, ainda bem, o Senado fritou essa ideia como um hambúrguer do estado do Maine. Para continuar a tragédia, nosso exibidor de faixa presidencial foi bancar o sincerão com um fanático seguidor e acabou iniciando uma profunda crise no seu partido de todos os lados. E ainda fica deixando ministros de baixíssimo nível, como o da Educação e do Meio Ambiente, fazerem trabalhos desprezíveis. O amigo do Queiroz também tem um dom verdadeiro de fazer os outros perderem tempo com suas bobagens, já que deixa o egoísmo e a vaidade tomarem conta de suas ações políticas e pessoais.

Por fim, há o personagem mais complicado de se entender: o grupo de pessoas que apoiam cegamente Bolsonaro. Em seu Twitter, principal fábrica de Golden Shower do país, ele fez uma comparação com o governo Dilma, parecido com o complexo do PT de se comparar o tempo todo com o FHC. Dentre os dados está a comparação entre o crescimento do PIB: -3,6% de Dilma contra +0,8% de Bolsonaro. Como pode um imbecil como Bolsonaro defender que um crescimento pífio e ridículo desses do PIB é algo para se comemorar? É absolutamente intangível colocar esse crescimento como algo para se orgulhar. O Brasil continua uma vergonha desde o início do segundo governo Dilma, e este governo não está sendo capaz de tirar o país da crise, pois perde muito tempo com bobagem e com decisões equivocadas.

No fundo, eu queria que fosse realmente uma ficção em que, ao se fechar o livro, voltamos para a realidade, mas, infelizmente, não será assim. Ainda viveremos um mundo ficcional complexo e surreal que desafiará nosso senso de realidade dia após dia.
(Fernando Fidelix Nunes)

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Um Empate Vale Mais Que Mil Palavras

(Ilustração feita por Enthony Keven)



Um Empate Vale Mais Que Mil Palavras


O Brasil conseguiu uma vitória singular na última noite pela Copa América. Em tempo me corrijo: empate sem gols seguido por uma vitória chorada nos pênaltis. Apesar do sofrimento, a verdade é que a classificação independe do espetáculo. Desde Pelé queremos o espetáculo em campo. Improvisar, criar, driblar e subverter a lógica do futebol são nossos traços típicos das nossas obras cinematográficas feitas em campo. Se bem que em tempos de seriados, um pouco de drama até o fim da temporada ajuda a cativar qualquer aficionado.

O Paraguai conseguiu segurar o 0x0 com um êxito indiscutível. Eles entraram em campo com esse objetivo acima de qualquer coisa. Parecia um jogo típico de Libertadores em que o adversário faz de tudo para não deixar a bola entrar e deixar o adversário entrar em profundo desespero psicológico. Como nossos “meninos” são criados na Liga dos Campeões da Europa (não há motivo para falar o nome em inglês!), não sabem, com exceção do Atlético de Madrid, o que é um time querer amarrar o jogo como um sequestrador amarra os pulsos da vítima

Esse é o problema e eu o explico melhor para quem não entende. Nossos “garotos” se acostumaram tanto a enfrentar equipes indispostas a abdicar de seus dotes ofensivos que se sentem perdidos diante do adversário, como uma criança que tenta andar de bicicleta pela primeira vez. O único que demonstrou o verdadeiro brasileirismo no futebol foi o Cebolinha. Obviamente, um jovem que teve como conselheiro e doutrinador Renato Gaúcho, conhecido vulgarmente como Renight nas baladas nacionais, não poderia fazer outra coisa. Tenho certeza de que seu mestre lhe disse: “entra, arrebenta e mostra que é abaixo da linha do Equador que se joga futebol de verdade!”. Infelizmente, nem esse talentoso e irreverente craque foi agraciado pelos deuses do futebol com um gol. Um dia explicarei a vocês sobre os deuses do futebol, que de certa forma são a síntese de vários deuses. Por enquanto, ficaremos com o jogo de ontem.

Tentamos de todo o jeito o gol, parecíamos a música do Skank, só que sem a parte do gol. Nem a expulsão com uma falta a um centímetro da entrada da área foi suficiente para fazer o gol. Na verdade, o Brasil, que não faz gol de falta há cinco anos, deveria trocá-la por um lateral para ver se cria alguma coisa mais eficaz. Do jeito que foi o jogo, era provável que os nossos vizinhos conseguissem segurar o empate mesmo com 4 jogadores a menos. Fomos aos pênaltis e muita coisa nos angustiava. Gatito vinha com uma moral monstruosa depois de alguns milagres em campo diante de Alisson. A princípio eu também me angustiei, afinal Alisson sempre agiu como um galã e, conforme eu postulo, qualquer jogador pode se arrumar e ter hábitos de galã de novela, menos o goleiro. O goleiro tem de ser esquisito, perturbado e, preferencialmente, muito feio.

Minha fé começou a mudar quando percebi que o Alisson bebia água de forma escalafobética e sequer tinha acertado o lado em que aconteceriam as cobranças, tendo de vergonhosamente ir até a outra baliza para o início do maior suplício dos craques da bola. Esse momento lhe foi decisivo, sem dúvida. Ademais, encontrava-se bem desarrumado e pouco cuidado, enquanto o seu rival tinha o cabelo intacto após uma partida exaustiva. Nesse momento, foi semeada a nossa vitória.

Após o erro do zagueiro paraguaio na primeira cobrança, todos acertaram, até o erro de um atacante que joga na Europa. Foi aí que bateu o desespero, logo dissipado pelo desperdício da última cobrança dos nossos adversários. No ato final e necessário, o nosso Jesus fez o milagre de acabar com a hegemonia paraguaia nos pênaltis e decretou o maior milagre da noite: Gatito Fernández não pegou nenhuma das cinco cobranças. Sim, a minha teoria sobre goleiros se mostrou mais uma vez hegemônica e irrefutável.

Agora é enfrentar e vencer a Argentina no Mineirão. Sim, só a vitória interessa no jogo da próxima semana. Messi parece obcecado, já que tem o sonho de ser o herói de um título argentino, que não vem há 26 anos. Tomara que esse tabu perdure por muito mais tempo.

(Fernando Fidelix Nunes)

sexta-feira, 1 de março de 2019

O País do Carnaval

(Ilustração feita por Enthony Keven)




O País do Carnaval


O problema do ser humano não são os seus sonhos, mas os seus desejos. Essa ideia não sai da minha cabeça já faz algum tempo. Quando eu estou no trânsito, na sala de aula ou até mesmo na academia, essa ideia me assalta o pensamento. Tenho acreditado que os sonhos das pessoas são belos, idealizados e agregadores de transformações positivas, tal como um poema romântico da primeira parte de Lira dos Vinte Anos ou crítico como o Navio Negreiro. Já os desejos são egoístas, despreocupados e inconsequentes, como a sordidez de Brás Cubas e a canalhice de Bentinho. Ainda vou achar uma explicação mais completa para isso. Afinal, a vida é longa e não precisamos de pressa para resolver os enigmas da Esfinge, já que podemos controlar a angústia de sermos controlados por uma dúvida. Sim, podemos controlar nossas angústias mais agudas, basta aprendermos como. Por enquanto, falaremos de outras coisas ou dessa mesma ideia com as suas consequências.

O Brasil está uma vergonha lastimável. Boa parte dos meus alunos é capaz de falar 10 minutos sobre uma obra literária, mesmo que não tenham lido o livro. O presidente brasileiro não foi capaz de fazer um discurso detalhado sobre o que fará para o Brasil ser um país melhor. Objetividade é algo que se deve procurar em textos formais, mas não é desculpa para uma argumentação rasa. Hoje, mais do que nunca, precisamos ser específicos para resolver o Brasil, pois o Brasil não se resolverá sozinho e ao acaso. O Enem cobra isso na redação por meio da competência 5: a elaboração de uma proposta de intervenção. O presidente que já se gabou de que tiraria uma nota melhor que outros políticos no Enem, dificilmente tiraria uma nota decente nessa competência. O problema é que nós vamos sendo puxados pelo bloco que ele comanda: Unidos da Estupidez – cuja bandeira é laranja.

Agora uma coisa precisa ser dita: um homem capaz de trocar mensagens com seu ex-ministro pelo WhatsApp e dizer que não falou com um dos seus homens de confiança é, definitivamente, capaz de qualquer atrocidade. Como pode o indivíduo cair numa dessas. Acho que é um vazamento recorde para um presidente brasileiro. Se bem que ele deve receber apoio recíproco durante um tempo para conseguir reformar a Previdência Social. Depois disso, só Deus sabe o que pode acontecer com o Brasil.

E o MEC? É inominável o que esse ministério faz. Procurei no Aurélio e em dois dicionários de sinônimos e não achei um termo sequer capaz de descrever as atitudes do MEC. O colombiano resolveu mandar um e-mail ridículo falando do hino nacional e pedindo a veiculação do slogan do governo. Além do slogan ser uma coisa de lunático religioso que não lê a Bíblia, o povo acha que a revolta é por conta do hino nacional. Não! A revolta é pelo slogan e é dupla porque os alunos não sabem o que significa o hino nacional. Há centenas de milhões de brasileiros que não sabem o que significa metade do seu próprio hino, tão exaltado em Copas do Mundo e, às vezes, tocado nas Olimpíadas. Nem o pessoal da página “Cenas Lamentáveis” seria capaz de postar tantas atrocidades.

No futebol, nem parece que somos a sede da Copa América. O brasileiro anda com vergonha da sua seleção como de um escândalo familiar que precisa ser ocultado a qualquer custo. E ainda por cima temos um monte de estádios caríssimos que estão servindo de casa para formigas de todo tipo. A CBF, nesse quesito, é mais cretina que qualquer político brasileiro. Queremos que muita coisa mude neste país, mas parece que nada vai mudar. De fato, a indiferença e a estupidez são os principais alicerces do subdesenvolvimento brasileiro.

Como os seres humanos estão correndo loucamente para o abismo, vamos rezar para o Céu, pois na nossa terra as coisas estão complicadas.

(Fernando Fidelix Nunes)

domingo, 9 de dezembro de 2018

Ando Precisando de um Empréstimo de R$ 40.000,00


Ando Precisando de um Empréstimo de R$ 40.000,00

Fazia muito tempo que eu não escrevia aqui, mas hoje as circunstâncias foram bastante favoráveis à produção textual! 

Definitivamente, a maior obra ficcional da humanidade é o que acontece no dia a dia da América do Sul. Comecemos pelo futebol. Nem as mais criativas mentes de todos os tempos seriam capazes de inventar um enredo que culminasse na final da Libertadores sendo realizada em Madri. Sim, o principal torneio de clubes das Américas teve a sua finalíssima neste domingo na Espanha. O motivo? Uma multidão de perturbados vestidos com a camisa do River Plate apedrejou o ônibus do Boca Juniors e deixou os jogadores sem condições de disputarem em alto nível a partida mais importante do ano no continente. Adiaram o jogo para o dia seguinte e o Boca se recusou a jogar. O que a nossa Conmebol propõe como solução? Superando a inventividade de Murilo Rubião, Clarice Lispector e Guimarães Rosa, ela decidiu que a finalíssima seria realizada na capital da terra de Cervantes. Uma vergonha total.

O jogo foi a cara da Libertadores: polêmicas incompreensíveis à cognição humana, bolas desviadas geradoras de lances emocionantes, entradas desleais, provocações politicamente incorretas, incontáveis cartões, torcidas enlouquecidas, craques na arquibancada, jogadores com o dedo na cara do juiz, gol do Benedetto, acréscimos intermináveis,  prorrogação, ceras intermináveis protagonizadas por um goleiro fanfarrão, goleiro indo para a área tentando um gol de qualquer forma e uma virada incontestável. O River Plate começou o jogo muito mole e nervoso, mas, depois do intervalo, impuseram a sua qualidade contra o time do Boca e levantaram a taça em Madri, para a alegria de um mar vermelho que se transformou a Argentina neste domingo. Sem dúvida, a produtividade da população argentina vai cair bastante nesta segunda, o que vai ser uma dor de cabeça a mais para o presidente Macri.

Falando em presidentes, a rotina do Bolsonaro anda agitada. Ele, incapaz de comparecer aos debates por problemas ocasionados pelo bárbaro atentado sofrido três meses atrás, levantou a taça do Brasileirão no estádio do Palmeiras, numa cena do mais baixo populismo que só acontece na América do Sul. Na vida de agitador ele vai bem, mas na política as coisas andam complicadas. Assistindo ao noticiário vemos cenas que parecem saídas de páginas ficcionais. Moro, que negava convictamente a sua possível entrada para a política, aceita a “missão” de assumir um ministério para lutar contra a corrupção e, quando questionado sobre o caixa dois de um outro ministro, desconversa esclarecendo que o companheiro admitiu o erro e pediu desculpas, o que é um pressuposto básico da severa justiça que nos aguarda. Outra coisa inimaginável é Joaquim Levy, ex-ministro da desastrosa gestão petista, integrar a equipe econômica de Paulo Guedes. Nem mesmo o mais cruel opositor seria capaz de fazer isso para atrapalhar a imagem do futuro governo.  

Por fim, Bolsonaro agora está envolvido numa situação delicada envolvendo, segundo ele, um empréstimo. Como eu ando precisando de R$ 40.000,00! Com esse dinheiro eu daria uma entrada num financiamento imobiliário bacana para sair do aluguel de vez. Resolveria uma das minhas principais dores de cabeça. Infelizmente, não tenho tantos amigos prestativos e, principalmente, remediados assim na minha vida. Muitos andam desempregados e se virando para fechar as contas fora do vermelho. Que sorte tem quem possui amigos capazes de emprestar dinheiro para lhes ajudar em um momento de crise como este.


(Fernando Fidelix Nunes)

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

A Felicidade Não É Deste Mundo


A Felicidade Não É Deste Mundo



Definitivamente, o preceito cristão de que a felicidade não é deste mundo nunca foi tão verdadeiro para mim quanto agora. O Brasil está à beira do abismo político e cultural como nunca esteve antes. No âmbito nacional estamos divididos entre Haddad, um homem com alguma habilidade política que foi o dedaço do Lula, e Bolsonaro, um frouxo fujão de debates que flerta com o totalitarismo e exalta a diminuição da dignidade humana.

Antes de continuar a minha reflexão, vejo-me na obrigação de indagar: onde estavam a imprensa e os poderes desta República para denunciar a fala de Eduardo Bolsonaro? Demorar mais de 100 dias para exigir uma retratação é um atestado de incompetência pura. Um deputado federal falar o que falou é um absurdo. Três anos atrás o nosso então Ministro da Educação, Cid Gomes, falou que o Congresso era composto por centenas de achacadores, o que lhe rendeu um “convite” para prestar contas diante do Congresso. E Dudu Bolsonaro? Publicou desculpas no Twitter e ouviu rascunhos de sermões prolixos. Neste momento, o Judiciário deveria ter uma presença democrática mais consistente e não dar respostas rebuscadas incompreensíveis ao cidadão comum que passou 12 horas fora de casa e assiste na televisão ou no celular a pronunciamentos insignificantes.

Voltando à falta de felicidade neste mundo, ficaremos tristes de todo jeito. Isso é um fato incontestável que acontece desde que este mundo é mundo. Bolsonaro não será capaz de levar o país a um desenvolvimento sustentável e todo dia vai ter de lidar com a oposição, o que não será nada fácil, tendo-se em vista a institucionalidade democrática. Haddad tem dificuldade até de lidar com o seu palanque, quanto mais com um país que implora por uma liderança capaz de tirá-lo do buraco sem fundo em que nos metemos. Contudo, Haddad tem uma vantagem que o deixa muito acima do rival: preza pela liberdade. E, como dizia Nelson Rodrigues, “a liberdade é mais importante que o pão” – e olha que esse escritor passou fome durante um bom tempo.

Apesar dos medos que tomam conta de milhões de brasileiros, sejamos sinceros: não seremos felizes de jeito nenhum. A felicidade não é para este mundo. Inclusive, a doutrina espírita ensina que existem outros mundos mais evoluídos para os quais vamos conforme evoluímos espiritualmente depois que passamos deste planeta, que é de provas e expiações. Religião à parte, o Brasil é um país de provas e expiações. O nosso sofrimento parece não ter fim. Olhamos para a nossa bandeira e temos vergonha da maneira como ela é usada pela política; pensamos na educação e sofremos com dados e realidades vergonhosas; lamentamos as misérias morais e econômicas – se as compararmos, obviamente, às nossas infinitas potencialidades –; tememos não sobreviver à violência; odiamos a leitura inteligente, como o Diabo odeia a boa ação; e não sabemos administrar os incontáveis conflitos familiares, que semeiam dia após dia a corrosão da alma muito mais do que qualquer questão política.

Por fim, não poderia deixar de falar da política do nosso Distrito Federal. Ambos os candidatos são uma vergonha. Sofreremos bastante com seus desgovernos futuros. Um tem uma rejeição inédita, e o outro é um cara que faz propagandas que flertam com o lado mais tosco do rorizismo, que parecia estar enterrado nesta primavera. Pelo menos, no fim das contas, Ibaneis diz que sabe abraçar as pessoas, o que tem o seu valor para tempos quase inconsoláveis.


(Fernando Fidelix Nunes)

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Nossas Escolhas Eleitorais Têm Consequências


Nossas Escolhas Eleitorais Têm Consequências

Normalmente, as pessoas que produzem textos sobre política, ainda mais na véspera das eleições, costumam esconder as suas intenções dos seus leitores. É uma espécie de cinismo revestido de retórica. Este texto não! Sou honesto da primeira à última palavra em dizer que tenho como objetivo persuadir as pessoas a mudarem de posicionamento na última hora e votarem em Ciro Gomes para presidente neste domingo.

Sejamos sinceros: Bolsonaro e Haddad não possuem a menor condição de governar o Brasil nos próximos quatro anos. Um diz que vai botar os melhores para governar e acha que só há o exército no país – e em menos de um mês já teve que fazer o general mourinha exercer o seu direito democrático de ficar calado em sua plenitude.  E não possui a menor capacidade para discutir nada em um nível decente. Indagado sobre que imposto iria mudar, ele só soube gaguejar “poxa, Miriam!” e tentou desconversar dizendo que não era economista nem médico para ser específico em relação a duas das grandes aflições do nosso povo. Cenas lamentáveis que vão entrar para os anais da História do Brasil, provavelmente num tópico específico sobre ignorância e política no início do século XXI.

Haddad segue aquela tradicional malandragem de se dar bem na onda dos outros. Acordem! Ele não é o Lula, mas fica enganando os outros com um slogan do tipo “O Brasil Feliz de Novo”. Quem governará este país será o mesmo grupo que estava com Dilma, que sequer é mencionada por Haddad em diversos momentos. Ademais, enquanto o #elenão faz os generais terem fantasias juvenis com uma possível ditadura de araque, Haddad tenta estimular uma ilusão que não se sustentará na prática governamental dos próximos anos. O Brasil não voltará a ter entre 4% e 5% de desempregados; nem terá protagonismo econômico e político, já que Haddad não goza de sequer uma ínfima fração do prestígio e da capacidade política de Lula.

E o Ciro? Olha, nenhum dos candidatos tem o conhecimento dele sobre os problemas da nação brasileira. Impressionante, o candidato tem algo a dizer sobre praticamente todas as regiões e problemas daqui. Ele deixa claro que fará algo para que os brasileiros possam refinanciar suas dívidas e, consequentemente, tirarem o seu nome do SPC. Sobre a economia, ele deixa claro o que vai fazer para aumentar a receita da União e acabar com o assombroso déficit público: taxar as grandes heranças e cobrar impostos sobre lucros e dividendos, práticas recorrentes em outros países desenvolvidos. As reformas previdenciária e trabalhista do atual governo serão mudadas e o Brasil, segundo ele, discutirá nos primeiros seis meses de seu mandato um conjunto de reformas que realmente mudará o país, principalmente a reforma política.

Outra grande qualidade de um eventual governo de Ciro Gomes é a atenuação gradual do clima de tensão no país. PSL e PT, sem dúvidas, colocarão o país à beira de um conflito irreconciliável nas próximas duas décadas. De um lado, um cara que semeia o ódio em muitas de suas falas e prega um amor incondicional à diminuição da dignidade humana. Do outro lado, um homem que a cada tropeço vai ter que dar explicações sobre denúncias de corrupção e justificativas para atenuar equívocos grosseiros.

Ciro Gomes não se mistura com os principais equívocos dos seus adversários. Ele não confunde a autoridade que tem com o autoritarismo tosco de outros candidatos. Tampouco aceita ser fruto de um oportunismo político. Ciro foi convidado para exercer o papel de Haddad ou de Manuela na chapa com Lula. Sabem o que ele disse? Não! Ele não quer dever sua eleição à predileção que o povo tem por outro político. Se ele fosse o oportunista que pintam, teria aceitado de imediato, pois isso o levaria ao Palácio do Planalto certamente.

E por que não votar nos outros? Porque os outros não vão conseguir ir ao segundo turno e tampouco têm capacidade para governar o país nesta interminável crise. Você tem o direito de votar em outro candidato. Fazer o quê? Democracia é isso mesmo. Agora, não venha reclamar depois de uma incompetente ditadura militar de quinta categoria ou de uma indicação improvisada. Afinal, nossas escolhas eleitorais têm consequências.

(Artigo de opinião escrito por Fernando Fidelix Nunes)

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Fingir a dor que deveras não sente


(fonte: http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2018-09/incendio-atinge-museu-nacional-no-rio-de-janeiro)

Fingir a dor que deveras não sente



Galera... a gente quase nunca vai a museu, mas botar fogo é sacanagem. Pô, nossa história virou pó em poucas horas. Assistimos pela televisão e lemos nos jornais a maior vergonha da nossa história. Temos dinheiro para bancar corrupção e campanhas políticas de mafiosos, mas não o suficiente para cuidar do nosso verdadeiro patrimônio: a cultura.

O descaso com o Museu Nacional no Rio de Janeiro também não é menor do que o descaso dos artistas com a cultura nacional. A produção do nosso tempo se pauta pela mediocridade e pelo conchavo, técnicas dignas do arcaico PMDB. Amigos se ajudam e omitem qualquer tipo de crítica só para que um círculo privilegiado tenha acesso à arte e à cultura. E emendamos: para ganhar dinheiro. Há autores e autoras que só querem saber de dinheiro. Tem gente que não se preocupa em fazer uma arte de qualidade, mas é louca para viver das qualidades do dinheiro provenientes da arte. Conseguem isso, pois o pacto da mediocridade é feito em larga escala.

As pessoas fingem sentir dor pela perda do museu. Não são como aquele dos versos de Fernando Pessoa, elas só fingem sentir as dores que não sentem. Cai bem um artista sentir dor pela perda do museu que nunca visitou, isso é licor de mediocridade com uma dose de prepotência daqueles que enterram a nossa cultura dia após dia. Muitos que foram protestar fazem, com a nossa cultura, o mesmo que o fogo fez com os incontáveis artefatos raros desta nação tupiniquim. Destroem silenciosamente qualquer relação do público com a arte enquanto sufocam o povo com a fumaça da estupidez inominável que degringola qualquer possibilidade de verdadeira arte verídica e do verídico, seus conspiradores filhos da puta (cá entre nós... o léxico do Ciro Gomes foi fundamental para encerrar este parágrafo).

Sejamos sinceros: a cultura tem sido paisagem para os artistas que andam mamando nas tetas do puxassaquismo e cagando na sociedade, que lhes tem servido de fralda. E o resto? O resto é perfumaria com preço de etiqueta vendido pela Amazon.

A bienal do livro de Brasília de 2018, por exemplo, não foi capaz de integrar leitor-cidade-escritor-obras. Só serviu para preencher a agenda cultural, isto é, ocupou espaços, não sentimentos e ações. Dessa forma, foi a tal mediocridade em forma de cultura. Também foi um fracasso capitalista. Todos os livreiros com que conversamos ficaram decepcionamos com o fluxo cultural-financeiro. Nem o pipoqueiro do lado de fora gostou. Ele disse: “a crise tá braba”. As viúvas de Renato Russo (essa burguesia socialite-socialista) estão matando nossa arte de todos os lados tentando preencher o vazio do amado com o primeiro idiota que aparece – diga-se de passagem que ele está muito longe dos padrões de estética, ética e produtividade do nosso tempo. Precisamos confessar que baixou o Trotsky no Renato na hora em que ele falou da burguesia.


Enquanto não percebermos a cultura que Brasília, eterna periferia cultural, realmente produz e obsecra por reconhecimento real, de fato, estaremos sujeitos às chamas da ignorância.

(Escrito por Fernando Fidelix Nunes e Renato Passos)

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

O Brasil é o único que não sabe aonde vai?




Acabei de completar 30 anos e não tenho a mínima ideia de como será esta década que se segue para mim. O Brasil tem mais de 500 de idade e quase 200 de independência e não sabe, eu, filho dessa mãe gentil, com meus meros 30 vou saber? Poucas vezes me senti tão brasileiro quanto hoje. Nem no tetra ou no penta eu senti o espírito nacional tão forte dentro de mim. Não tenho ideia se organizarei a massa para a construção da URSAL; se seguirei a carreira acadêmica; se tentarei a vida de escritor por muito mais tempo – com exceção do diário, que terminarei sem qualquer dúvida –; se me casarei e terei filhos; se continuarei espírita; se o Palmeiras será campeão mundial; se vou conseguir terminar de ler a obra de Tolstói; se estarei no mesmo apartamento apertado e aconchegante.

É um senso comum da vida privada dizer que o futuro a Deus pertence quando estamos em uma encruzilhada. Realmente, o senso comum tem o dom de nos tirar a responsabilidade dos nossos atos por meio de uma simplificação grosseira. Os religiosos que me perdoem, mas não tem nada de Deus nisso. O principal ser responsável por nosso destino somos nós mesmos aliados às circunstâncias em que estamos inseridos. Dito de outra forma: na vida você é você e a relação que você estabelece com o mundo. Simples assim. E nem me vem reclamar da repetição de você, porque aqui tenho licença poética. Se quiser uma reflexão detalhada sobre isso, aconselho a leitura do livro Discurso e Contexto, de Tean A. Van Dijk. Ele detalha isso de forma minuciosa por mais de 300 páginas.

Falo do texto do Van Dijk só para dar um argumento de autoridade, porque sei que ninguém vai ler o livro depois da citação numa crônica de um blog marginal. Imaginem que eu fui a um congresso acadêmico com a nata da pesquisa em Análise do Discurso na UnB e, depois de perguntar sobre a visão do Van Dijk sobre o contexto em oposição à visão do saudoso M.A.K. Halliday, tive a impressão de que a maioria das pessoas não tinha a menor ideia do que eu estava falando. Portanto, se a turma que era para ler é do fã clube da dupla “não li e não lerei”, não há precedentes para que o grande público leia. Agora se fosse algum diário obsceno, tenho certeza de que teria mais leituras e até estudos. Tenho outras impressões do evento, mas as deixarei para as próximas crônicas. Afinal, sou um escritor que gosta de prender a atenção dos leitores para os próximos textos.

Nos altos e baixos dos meus 30 anos, eu já vi muita coisa neste país, mas a nossa situação política é peculiar demais. Saramago e García Márquez devem estar olhando do céu para cá pensando: “inventamos histórias inimagináveis, mas falhamos, pois seríamos incapazes de fazer algo parecido com a América do Sul de hoje”. De fato, o nosso contexto irreal é provavelmente a nossa obra-prima. Venezuela em frangalhos, Argentina importando nossa crise e Brasil numa disputa única em sua história, fora as incontáveis perversidades deste continente.

Pensei que teríamos um quebra-pau daqueles nos debates para os principais cargos do executivo. Ledo engano. Todo mundo na mais absoluta paz de espírito. Os debates parecem conversa de amigos que discordam com uma respeitabilidade digna dos mais finos manuais de retórica. O povo esperando que a próxima pessoa a governar tenha gana de brigar com unhas e dentes pela nação e com a vontade de constranger a picaretagem alheia. Como diria um ex-aluno meu: “dá nada não parceiro”. O povo vai “marcar um dez” com as peripécias da vida enquanto as coisas não se resolvem. Definitivamente, cenas lamentáveis.

Esta nação brasileira não tem a mínima ideia aonde vai nos próximos anos. Mais de um terço quer o Lula presidente para o Brasil ser como era na década passada; um quinto mais um pouco quer o Bolsonaro, seja para tornar este país mais esquisito, seja por ser a única chance da elite enfiar políticas liberais de qualquer jeito; um quinto não quer votar em nenhum sem vergonha para não se arrepender depois; e o resto fica dividido entre os demais candidatos. Em outras palavras, o país não tem a mínima ideia do seu rumo. Lamentável pensar assim, mas é o fato que nos é imposto. As decisões que tomaremos nos próximos meses, infelizmente, serão apenas convencionais. Ninguém, além dos fanáticos, tem qualquer convicção de que o futuro será para “glorificar de pé”.  

Os candidatos, assim como os eleitores, estão perdidos. Daciolo diz que vai botar o Brasil no topo das economias globais, ou seja, promete implicitamente um crescimento instantâneo de 30 % do PIB por ano de governo, um milagre econômico raiz; Bolsonaro dá a entender que os alunos estudam mais ideologia de gênero do que Química nas escolas (para revolta absoluta de uma dedicada professora de Química que eu conheço) – ademais, anda usando uma metáfora de namoro/casamento curiosa em relação ao seu homem da economia; Lula acha que vai dar um segundo dedaço na sucessão e que será melhor do que no tempo do Fernando Henrique; Alckmin diz que vai fazer pelo Brasil o que não fez por São Paulo; Álvaro Dias se arruma como Fábio Jr para tentar atrair a mulherada; Boulos acredita que se expressar bem e ter convicção é a mesma coisa que governar bem; Amoêdo realmente acha que é uma novidade ser conservador nos costumes e liberal na economia; Marina crê que desqualificar Bolsonaro é suficiente para governar o Brasil; e Ciro Gomes pensa que enganou o povo sobre a URSAL, grande plano oculto que está subentendido em seu plano de governo, assim como os projetos da Nova Ordem Mundial.

Pior do que o quadro nacional, sem dúvida, é o quadro distrital. Assisti aos dois debates. Uma vergonha total. Quanta inconsistência. Desmoralizar o atual governador é muito fácil. É só dizer: “governador, e o eixão que está caído há mais de 6 meses?”. Acabaria o debate e o atual governador não teria o que fazer, muito menos o que dizer. Definitivamente, cenas lamentáveis.

Cada um pensa uma coisa e ainda vão fazer alianças no segundo turno, o que é um recurso coesivo absolutamente incompreensível na construção da (in)coerência textual de nossa nação. Se bem que eu não tenho muita moral para falar, porque eu também ando meio sem rumo por aí.
               
(Fernando Fidelix Nunes)

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

O Cara Voltou


O CaraVoltou!

                O grande responsável por duas eliminações traumáticas do Corinthians na Libertadores, o bicampeão do principal torneio das Américas, o senhor da Copa do Brasil, o homem que sempre disputou sete jogos na Copa do Mundo (mas não falemos muito do 7), o entrevistado mais polêmico das coletivas após os jogos, o ser que recorrentemente manda os gandulas jogarem bolas em campo para amarrar o jogo decisivo, o maior motivador dos jogadores desacreditados e, definitivamente, o técnico que mais provoca a torcida adversária. Sim, Felipão está de volta ao Palmeiras, a sua verdadeira casa.
                A volta de Felipão ao Palmeiras é símbolo da tese que eu defendo de forma veemente: no Brasil tudo muda para não mudar nada! Em 2010, depois de uma Copa do Mundo e após uma série de demissões de treinadores nos anos anteriores, a diretoria procurou quem para comandar a nossa Academia de Futebol? Sim, Felipão! Inacreditável como as coisas se repetem neste país. Não é à toa que Cazuza dizia que via por aqui um museu de grandes novidades.
                Quando vi o anúncio, eu, assim como vários outros torcedores, passei a vislumbrar um futuro cheio de glórias. Já consegui projetar algo assim: Palmeiras campeão mundial depois de uma histórica vitória com um gol do desconhecido atacante Papagaio, que seria o símbolo da raça de um time que venceria o jogo com um a menos devido à expulsão de Felipe Melo, ocorrida após uma entrada desleal no craque do time adversário. A hegemonia europeia no final do ano está com os dias contados! E é óbvio que essa estrada de glórias será asfaltada com muita bola parada e momentos em que a ética desportiva será mais flexível do que muitas pessoas que praticam ginástica em nível olímpico.
                O torcedor nostálgico lembrar-se-á das incontáveis vezes em que vimos jogadores absolutamente anônimos conseguirem, sob o comando de Felipão, um lugar ao sol em momentos decisivos com a camisa alviverde, pena que foi só em momentos esporádicos. Sempre perguntávamos: de onde veio esse cara? Podemos simplesmente nos lembrar de Betinho, herói do título da Copa do Brasil de 2012, ou de Fernandão, trombador responsável por um gol de uma categoria inigualável contra nossos rivais alvinegros. Nessa época, o nosso herói sofreu muito. Teve que aguentar o Dinei que não era o Dinei; o Tinga que não era o Tinga; o Cicinho que não era o Cicinho; o Rivaldo que não era o Rivaldo; e assim por diante. Confessou diversas vezes o seu sentimento de frustração com as pessoas. Disse que a tristeza com o time era semelhante à de acordar com uma mulher feia ao seu lado. Falou que não aguentava mais comer arroz e feijão só e que queria carne e camarão. Além de, obviamente, fazer incontáveis críticas à arbitragem, mesmo quando não tinha muita razão em reclamar.
                Há jornalistas afirmando que ele está desatualizado. Falam em compactação e tal. Eles acompanham futebol há décadas e não entenderam que esquemas táticos são meros detalhes no futebol. O fator psicológico coloca o tático no chinelo. Eles acreditam, por exemplo, que o Messi não jogou nada na Copa por conta de tática? Que Cristiano Ronaldo foi efetivo em um jogo por conta da disposição tática? É vergonhoso esse modo de pensar. Falando nisso... o que eles costumam fazer para se atualizar? Eu nunca vi nenhum deles citando um livro ou nada do tipo sobre a crônica esportiva. Ninguém também escreve muito sobre isso, deve ser por falta de público. Ando em livrarias e nunca vi uma obra do tipo “Manual do Comentarista Esportivo”, “Novas Perspectivas em Comentários Futebolísticos”, “A Crônica Esportiva e a Filosofia” ou mesmo “77 estratégias para se comentar um jogo sem saber nada de futebol”. Também não vejo eles falando em tempo de estudos. A vida é assim mesmo: muitas pessoas cobram das outras aquilo que falta nelas mesmas. Falando nisso, já me relacionei com uma senhorita assim: quando via em mim algo que não gostava em si mesma, era pura crítica e aversão a mim. Entretanto, deixarei essa história para outra crônica.
                Voltando ao futebol! Felipão tem um currículo singular e não precisa provar nada para ninguém. Um homem que ganha uma Copa do Brasil com o Criciúma em 1991 e outra com o time do Palmeiras de 2012 está acima do bem e do mal. Tem grandes frustrações, principalmente com a Seleção Brasileira. O pessoal fala o tempo todo do 7x1, mas se esquecem de que em 2001 o Brasil foi eliminado da Copa América pelo sempre discreto time de Honduras. E eu respondo a isso tudo: sim, e daí? Se você não tem fracassos vergonhosos na sua vida, você não é deste mundo. As pessoas só tem a vida perfeita nas redes sociais. Em muitos casos, nem no mundo espiritual a vida é tão coerente e perfeita. Na vida real, nós temos imperfeições inconfessas e seguimos éticas flexíveis de acordo com nossos interesses. Só apontar isso nos outros e não enxergar em si é um defeito temeroso, mas que costuma passar despercebido pelos egos pós-modernos.
Na reapresentação, o presidente declarou: Felipão tem grande identificação com o Palmeiras. Nunca vi um presidente falar uma verdade tão clara e objetiva. Na coletiva de hoje, Felipão disse tudo que a massa queria ouvir. Disse que passará para os atletas toda a disposição para começar a querer ganhar as finais. Sobre prioridade, falou o que a massa sempre quis ouvir: “vamos priorizar todas as competições”. Essa frase deveria entrar num manual de retórica para técnicos. Sabemos que é pura mentira. Claro que não chega ao nível das referências históricas do Bolsonaro, mas é mentira. Tenho certeza de que, se estivermos na final da Libertadores, quem joga é o sub-17. Nem o massagista vai para o jogo. Confirmou na prática a vontade de ganhar tudo. Realmente, foi isso que faltou no Paulistão e nos jogos seguintes. Para criticar a imprensa e Tite, seu desafeto, disse suavemente “não sou o técnico que perdeu o último Mundial”. Tite parou no quinto jogo, Felipão sempre jogou os 7.
Ontem contra o Bahia, era visível o dedo de Felipão na postura da equipe. Tivemos até um jogador expulso por cotovelada desleal. Isso é dedo do auxiliar, Paulo Turra. Esse cidadão compôs um dos mais perversos miolos de defesa da história do futebol brasileiro: Galeano, Argel e Paulo Turra. As canelas de atacantes de todo Brasil sofreram com esse verdadeiro Trio Ternura. Ninguém mais representante desse estilo que o Paulo Turra.
Felipão disse que acompanhava os times brasileiros, mas até se atrapalhou em falar de outros além de Palmeiras e Grêmio. Se bem que um homem capaz de dizer que acompanhava da China – lembrem-se do fuso horário – os jogos da quarta divisão do Campeonato Brasileiro merece concorrer ao prêmio de símbolo de amor à pátria. Essa declaração é quase uma “Canção do Exílio” do Século XXI. Tenho certeza de que ele olhava o time nos últimos anos e dizia a si mesmo: “eu nesse banco de reservas fazia esse time ganhar tudo”. Ele pode negar, mas quem é palmeirense sabe que ele pensava isso.
Agora é só esperar para ver a história sendo feita no Verdão!   

terça-feira, 17 de julho de 2018

Somos Croatas?

Somos Croatas?


Acabou mais uma Copa e as minhas crônicas sobre ela. A França, como era claramente esperado, levou para casa a taça, o que resultou, infelizmente, nas típicas cenas lamentáveis: devaneios alcoólicos, confusões de massa, confronto com a polícia, destruição do patrimônio público e privado, diminuição da produtividade da população no dia seguinte, desrespeitos diversos à dignidade humana, exposição exacerbada de uma pessoa cometendo ações constrangedoras para sua imagem e assim por diante. Sinceramente, senti um pouco de inveja. Espero há 16 anos por esse momento aqui nas terras tupiniquins. Infelizmente, terei de esperar mais quatro se o Brasil não faturar a Copa América no ano que vem.

Vamos ao jogo! O goleiro croata foi uma vergonha para a nação. Os quatro gols franceses eram defensáveis, inclusive o pênalti. Ele ficou muito afobado e inseguro. É como se dissesse para si mesmo durante o jogo: gente, já chegamos longe demais e não somos dignos da taça. Ele, definitivamente, foi a principal arma da França na final. De resto, os franceses passearam com a elegância intranquila de um personagem balzaquiano acostumado a se dar bem sem esforço. Leiam O Código dos Homens Honestos para entenderem melhor o que eu estou falando. Os croatas precisam melhorar para levantarem uma taça! Precisam olhar para si mesmos e dizerem com o peito estufado: "nós somos dignos desse título e faremos por onde". Perderam, visivelmente, na baixa autoconfiança.

Modric (meu corretor não permite acento no "c" - isso que é um croata de verdade!) mereceu ser o melhor da Copa. Só um gênio é capaz de levar a Croácia a uma final. O grande feito é deles! Se bem que na vida, muitas vezes, queremos ser como a Croácia. Sim, queremos ir além das expectativas das pessoas que nos cercam e da maneira como nos rotulam. Sejamos sinceros! Ninguém esperava ou espera algo do futebol croata. Os mais respeitosos só diziam: "tem bons jogadores" e "vai dar trabalho". E o que eles fizeram? Tirando a final, foram até o fim e aproveitaram ao máximo as falhas dos adversários e exploraram ao máximo as suas qualidades. Acho que deveríamos aprender muito com a Croácia. Nem sempre o segundo lugar é uma derrota. O segundo lugar demonstra a força deles diante das outras 30 seleções que ficaram para trás. Na vida, o segundo lugar entre tantos outros costuma trazer muitas coisas boas, exceto no amor. No amor só o primeiro lugar vale, o resto é paisagem.

Ah! Também teve uma pelada no sábado em que os belgas venceram os ingleses. Uma vergonha o tanto de puxa-saco para o futebol belga. "Vejam como jogam", "eles são bons mesmos", "não é à toa que eliminaram o Brasil" e blá blá blá. Insisto: não fizeram nada demais para essa badalação toda. Só chegaram ao terceiro lugar porque os outros times deram mole. Simples assim.

E o Brasil? Volta pra casa cheio de vergonha e cabisbaixo. Se quiserem se redimir de verdade, precisam jogar a vida e encantar a todos nos jogos da Copa América. Aí sim uma chance de salvar esta década perdida em todos os sentidos.

(Fernando Fidelix Nunes) 




domingo, 8 de julho de 2018

Faltou o Improviso Audacioso

Faltou o Improviso Audacioso
               

Confesso que estou atrasado, mas o abatimento da eliminação e a vontade de curtir as minhas férias foram suficientes para eu adiar essa crônica sobre a Copa do Mundo. Foi uma atuação ruim, lamentável e desastrosa. Foi o suficiente para estragar a melhor sexta do ano: quase início de recesso, salário na conta e jogo da seleção. Quando somos eliminados de uma Copa do Mundo, nunca pensamos que o fomos pelo mérito do adversário. Nós sempre saímos com a sensação de que as falhas do nosso time foram muito maiores do que qualquer coisa. O jogo contra a Bélgica não foi exceção. Apesar do belo segundo gol, nós falhamos num gol contra e, principalmente, deixamos passar as oportunidades, que só tiveram cara de Brasil com Renato Augusto. Sim, fizemos dois gols e fomos eliminados.

Pareceu que apenas Douglas Costa, Renato Augusto e Fagner representaram bem o espírito brasileiro. Foram raçudos, persistentes e, principalmente, eficientes em suas funções. Menino Jesus precisa amadurecer muito, muito mesmo. Chegou à linha de fundo e tentou cavar um pênalti em vez de chutar ou cruzar. Decepcionante isso vindo de um ex-palmeirense. Neymar se jogou durante o jogo numa ocasião tentando cavar pênalti. Na Vila Belmiro isso até funcionava, mas com árbitro de vídeo esse tipo de atitude é de uma estupidez inominável. Ele ainda teve a audácia de colocar numa rede social que pensa em largar o futebol. Ele acha que engana quem? Pior que ele engana muito trouxa por aí. Esse narcisismo faz muito mal ao futebol dele. A equipe dele, incluindo os “parça”, precisa falar com ele urgentemente sobre isso.

E ainda precisamos ver a imprensa enchendo a bola da Bélgica. “Os únicos que venceram 5 jogos nesta Copa”, “esse time é bom mesmo” e outros truísmos deixariam um Machado de Assis incrédulo diante de tanta idealização romântica. Os caras vencem Tunísia, Japão, Panamá e os reservas da Inglaterra antes de nos vencerem. Isso é vergonhoso. Eles não mostraram nada demais até agora. O goleiro teve uma atuação legal, mas não foi lá essas coisas também. Vale destacar que o goleiro belga tem feições divergentes dos padrões de beleza instituídos pelo estilo de vida ocidental, o que ajuda a confirmar a minha tese de que bons goleiros não podem ser galãs.

Insisto que para a próxima Copa não podemos ter um goleiro galã. Em qualquer outra posição tudo bem, mas na de goleiro não. Goleiro da Seleção Brasileira precisa ser esquisito, com cara de malandro, cheio de caretas estranhas e, principalmente, feio. Alisson é só mais um exemplar dos nossos goleiros galãs que não suportam uma Copa do Mundo. Vejam só os três goleiros do Penta: Marcos, Dida e Rogério Ceni. Os três eram peculiares. Dida nunca sentia qualquer tipo de emoção. Quando o Corinthians ganhou nos pênaltis o Mundial de Clubes em 2000, ele sequer saiu correndo para comemorar. Rogério Ceni batia até faltas. E Marcos era o rei das caretas nas defesas difíceis.

Sobre Tite, concordo que ele é um encantador de serpentes. Em dois anos não ensinou seus atletas a vencerem as adversidades. Dava para ver a cara de desespero dos atletas durante o jogo. Também faltou tirar um ou mais coelhos da cartola. Num jogo tenso o Brasil só é capaz de reverter um placar por meio de uma atuação individual absurda. Além dos incontáveis exemplos de Romário em 1994, podemos lembrar o jogo contra a Inglaterra em 2002. Além de ter dado uma bela assistência para Rivaldo empatar, Ronaldinho Gaúcho foi capaz de arriscar uma falta direta para o gol da lateral da intermediária. Todos esperavam um cruzamento dali, mas o bruxo foi capaz de mandar a bola no ângulo. Acho que foi o gol mais incrível que eu vi até hoje numa Copa do Mundo. Isso é ser brasileiro. Precisamos recuperar o improviso impensável e audacioso. Temos quatro anos para isso.

De resto, acredito que a França é a única digna de levantar a taça, pois mostrou um futebol técnico, eficiente e de uma superioridade indiscutível em todas as partidas. As outras seleções parecem muito incompletas e pouco confiáveis. A Bélgica não tem nada demais, como eu disse. A Croácia foi trombando com equipes medianas até chegar entre as quatro melhores. E não me venham falar que detonaram a Argentina, porque a Argentina já estava destroçada antes de entrar em campo. A Inglaterra só tem o artilheiro, porque teve pênaltis ao seu favor e também jogou com equipes sem muita qualidade técnica. Só que é futebol né? Em futebol, tudo é possível.

domingo, 1 de julho de 2018

A Diferença Entre os Meninos e os Homens na Copa da Rússia


A Diferença Entre os Meninos e os Homens


         Tenho tirado muitas reflexões com a análise desta Copa do Mundo. Infelizmente, a necessidade de publicar os textos, que são absolutamente perecíveis se comparados a um ensaio, me faz correr com a escrita e não terminá-la como gostaria. Mas crônica que segue.

A Argentina não sabe perder nem aprender com a derrota. Isso soa estranho para uma seleção que perdeu e sofreu todo tipo de vexame nos últimos 25 anos, mas é a pura verdade. Apesar de França e Argentina terem conseguido fazer um esplêndido 4x3 para a seleção da terra de Balzac, Victor Hugo e Flaubert contra a seleção da terra natal de Borges e Sabato, o resultado não demonstrou o jogo. A todo instante a Argentina estava rendida, isto é, os argentinos já aceitavam a derrota antes mesmo do fim do jogo. O observador ou a observadora mais distraídos podem até pensar que, quando nossos rivais fizeram o terceiro gol e foram correr atrás do milagroso quarto, era um time com raça e tentaria ir até o fim. Pelo contrário, em vez de deixar o jogo fluir, eles já arrumaram uma confusão tosca e imbecil, recorrente em competições sul-americanas. Pareceu que eles fizeram isso inconscientemente para atrapalhar a si mesmos. Eles mesmos perceberam que não eram dignos do título e, como eu já disse em outra crônica, os argentinos deixaram o presente de lado e viveram das dores do passado e do iminente resultado adverso futuro, o que é a certeza absoluta da frustração no esporte e na vida.
         
        Vale a pena fazer um exame detalhado de Messi. O craque argentino andava pelo campo o tempo todo cabisbaixo. O time errava um chute, Messi ficava introspectivo e cabisbaixo. O time levava um gol, Messi olhava para baixo como se estivesse procurando algo. E, de fato, ele estava procurando. Ele procurava a si mesmo. Um homem considerado o melhor do mundo no que faz não ser capaz de transformar a sua habilidade individual em um título coletivo por seu país deve ser um paradoxo incompreensível para sua mente. E é assim a vida também: quanto mais ficamos imersos nos nossos pensamentos mais sombrios, mais nos tornamos vulneráveis à derrota e à sorte alheia. Ele não foi capaz de ver que o que ele procurava estava o tempo todo à sua disposição: técnica, raça e sorte. Só que olhando para baixo, não foi capaz de enxergar o óbvio.

Embora seja um jogador argentino, no fundo, por baixo de uma alegria singular com o vexame hermano, sinto um pouco de empatia por Messi. Não digo pena, porque pena é o pior sentimento que podemos ter por alguém. Sentir pena significa a mesma coisa que sentir que a pessoa não merece que sintamos mais nada por ela. Enfim, falarei disso em outro momento, voltemos ao Messi. Olho para Messi em campo e vejo o ser humano viver alguns dos mais diversos paradoxos de nosso tempo. Como o melhor não consegue o melhor título? Como o melhor do seu grupo não consegue representar o seu grupo da melhor maneira? Isso não é pouca coisa para um ser humano. Se fosse a primeira Copa tudo bem, mas ele passa por isso há mais de uma década e já saiu derrotado de formas traumáticas em outros mundiais, que foram tão frustrantes quanto o atual.

Como consolo para imagem de Messi, sobrou a eliminação de seu maior rival, Cristiano Ronaldo. Digo consolo para imagem, porque me parece que essa frustração não tem qualquer consolo na alma do craque argentino. Cristiano Ronaldo não conseguiu vencer nossos raçudos vizinhos. Qualquer um que acompanha minimamente a Libertadores sabe que a catimba e a retranca uruguaias eram previsíveis. E é aí que se separam os meninos dos homens. Cavani, que foi colocado na posição de mero coadjuvante no PSG, se viu diante da oportunidade de ouro de vencer e se tornar herói de sua seleção. Teve duas boas chances e consolidou a classificação. Depois que conseguiram a vantagem, os jogadores de Portugal foram colocados no bolso pelos compatriotas do saudoso Mario Benedetti e por uma estratégia simples: 8 jogadores de linha atrás do meio-campo e dois jogadores prontos para correr desesperadamente e dar um jeito de enrolar o jogo. Teve um jogador uruguaio que, no primeiro tempo, teve a capacidade de pedir para que a bola fosse trocada antes da cobrança de um lateral. Tenho certeza absoluta de que a bola estava normal, mas essa enrolação é tão pilantra e atípica que os descobridores destas terras tupiniquins não conseguiram achar uma reação para resolver essa picaretagem. Como insisto em dizer: são meninos, não são homens.

Cristiano Ronaldo é um craque, sem dúvidas, mas ainda não mostrou merecer a Copa. Ele deixou uma barbicha esquisita de bode crescer para dar uma resposta midiática à sua rivalidade com Messi. Não sabe por que ele fez isso? Vá procurar no Google e entenda! Ele, assim como o Messi e os argentinos, não estava pronto para vencer uma Copa. Eles são meninos que são facilmente dominados e subjugados por seus rivais, pensamentos e crenças se estes forem capazes de jogar em cima de suas fragilidades.

Neste domingo, Rússia e Croácia deixaram uma pergunta a ser respondida: será? Será que podem ser uma zebra histórica e levantar o troféu mais cobiçado do planeta Bola? Eu acho que não, mas estamos falando de futebol. Em futebol tudo é possível se tivermos uma postura madura e uma combinação sólida entre tática e técnica. A Rússia segurou o empate, pois sabia de sua capacidade de decidir nos pênaltis e é como eu me canso de repetir aqui: goleiro metido a galã não é vitorioso. Vejam o goleiro da Espanha. Badalado, arrumado e vaidoso. Pegou quantos pênaltis? Nenhum! O goleiro russo, muito mais humilde nesses aspectos, apesar de um comentarista ter dito que ele é conhecido por falar “treinar pra quê, se eu sei o que fazer?” (sim, o futebol de verdade ainda respira por aparelhos graças a posturas desse nível de sabedoria), pegou dois pênaltis com propriedade para fazer a festa na sua terra, que tem tudo para bater o recorde de consumo de vodca neste fim de semana. Recorde com a meta em aberto, pois outro triunfo pode dobrar a meta. A Croácia jogou sabendo que ia passar de qualquer jeito. Nem se importou com um ou outro perrengue. Uma verdadeira comodidade de dar inveja a muito burocrata por aí. Os jogadores bateram os pênaltis de qualquer jeito. Jogo feio, era melhor assistir ao filme do Pelé.

E o Brasil? O Brasil só Deus sabe no que pode dar. Dizem que Deus é brasileiro, e aí está o problema. O brasileiro, quando não vê a sua seleção jogando o futebol genuinamente nacional, torce contra. Nesse ponto, é perigoso saber para onde Deus destinará os seus milagres. Lágrimas falsas e exibicionismo, definitivamente, não são bem vistos pelos seus valores. E ainda é o México. Ninguém sabe como jogará a seleção mexicana, nem eles mesmos sabem o que vão fazer. O técnico Osório é um estrategista poderoso e irregular, pois monta esquemas táticos com virtudes e defeitos entrelaçados em si. O esquema mexicano é de uma estética similar à de Gregório de Matos: cheio de contrastes e um rebuscamento incompreensível ao apreciador moderno. Acho que passamos passando raiva, mas passamos. Pelo menos será mais um dia em que beber antes de meio-dia não será considerado alcoolismo.
(crônica escrita por Fernando Fidelix Nunes)

sexta-feira, 22 de junho de 2018

5 minutos de futebol da Seleção


5 Minutos de Futebol da Seleção


O Brasil fez uma atuação bastante sofrível para o torcedor nesta sexta-feira. Nem a possibilidade de beber antes de meio-dia sem se sentir um alcoólatra foi suficiente para diminuir o sofrimento. Errávamos gols que nas eliminatórias eram rede na certa. Nossos jogadores estavam visivelmente angustiados e estressados a cada lance. Por exemplo, aos 43 do segundo tempo, 2 minutos antes do Brasil começar a fazer o que sabe, Neymar estava a plenos pulmões ofendendo adversários e até o árbitro em inglês, espanhol e português. Pelo meu conhecimento linguístico, ficou evidente a sua fluência em conversas de baixo nível nos três idiomas, o que é absolutamente necessário para um atacante tipicamente brasileiro.

Como torcedor, afirmo que senti o medo de repetir a angústia da Argentina. Imaginem só passar pelo vexame de Messi e demais agregados. Cada bola defendida pelo Navas, mito que jamais havia perdido em Copas para uma seleção campeã do mundo, era uma angústia a mais. Parecia que nem o menino Jesus, responsável por uma bola na trave, seria capaz de fazer o milagre do gol. Sim, o gol brasileiro deixou de ser uma possibilidade natural para se tornar um milagre, uma benção, uma glória ou uma verdadeira dádiva divina.

Neymar, profissional em cavar pênaltis, esqueceu-se de que hoje existe o árbitro de vídeo. Na Copa passada até dava para cavar um na malandragem, mas com a tecnologia as coisas mudaram muito. Ele sabia que não tinha sido nada. O chato é que a gente comemorou o pênalti e se encheu de esperança. Aumentou-se a justiça e prolongou-se a angústia, ou seja, o futebol conseguirá aumentar ainda mais a quantidade de ataques cardíacos decorrentes de emoções esportivas que pessoas indignas chamam de “apenas um jogo”.

Então, vamos aos cinco minutos que interessam. O Brasil pressionava a Costa Rica mais do que o Donald Trump foi pressionado pelo mundo para rever sua política imigratória. Era chute de fora da área, cabeçada na trave, cabeçada fraca, chute fraco, trombada de todo jeito, cruzamentos de toda natureza e tudo mais que o futebol disponibiliza, menos o gol. Até que Firmino, dono do sorriso mais brilhante da Copa, escorou de cabeça para o menino Jesus deixar Coutinho frente a frente com Navas. O craque do Barcelona mostrou todo o seu talento ao meter um bico na bola que passou debaixo das pernas de Navas. Inacreditável isso! É só no futebol. Os brasileiros, aptos para todos os tipos de técnicas, estão entre os melhores do mundo e acabamos fazendo um gol nos acréscimos por meio de uma técnica típica dos nossos artilheiros de pelada: o bico. E ainda por cima foi por debaixo das pernas do goleiro, que era para ser o lugar mais improvável. Suspeito que a mística da camisa 11 de Romário, mestre em fazer gols de bico em mundiais, vai fazer escola com esse menino.

Nesse momento o país entrou em êxtase puro. As pessoas se abraçavam, bebidas voavam, gritos de toda ordem tomavam conta até nos pontos mais recônditos da nação tupiniquim. Até o técnico caiu no chão. Obviamente, que os grupos de WhatsApp também nos deram diversos exemplos dessa comemoração. Conheço até um amigo que publicou em incontáveis grupos: “Coutinho, me engravida, seu lindo!”. Sim, senhoras e senhores, um gol brasileiro na Copa do Mundo é capaz de fazer um homem querer ser mãe de um filho de um jogador que até 2 minutos atrás era xingado a plenos pulmões pelo mesmo ser humano. Coisas da vida moderna.

A comemoração ainda estava em andamento quando nos momentos finais Douglas Costa tocou para Neymar, sem goleiro, sem zagueiro, sem árbitro e sem medo de errar mandar para a rede o segundo. Foi uma euforia só. Aqueles que cornetavam Neymar passaram a tratá-lo como gênio e mito. Ele chorou. Lágrimas sinceras. Isso me preocupa. O jogador brasileiro não deve chorar por vencer a Costa Rica no segundo jogo de uma fase de grupos. É uma imaturidade semelhante à de um adulto chorar por ter quebrado uma garrafa de whisky cara. Mas tratarei do psicológico dessa geração em outro momento.

Dessa vez cinco minutos foram suficientes, mas devemos jogar como Brasil durante 90 minutos para sermos o país do hexa. Agora é torcer para vencer a Sérvia e para a Nigéria eliminar a Argentina.

(Crônica feita por Fernando Fidelix Nunes)